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Mostrando postagens com o rótulo Literatura

Beija-Flor

  Beija-Flor está disponível somente no livro 'Folhas ao Vento de Nós'. Este conto foi criado após a conclusão da edição do livro e foi escrito justamente para fechar a sequência de contos. Por isso, este é um exclusivo, visto que ele é uma sumarização de todos os sentimentos que tornaram o manuscrito possível. 'Folhas ao Vento de Nós' está disponível para compra na plataforma da UICLAP  e também em versão digital para Kindle na Amazon . Caso queira a versão em capa dura com ilustrações ainda mais exclusivas, entre em contato que eu mesmo te entrego ou envio para todos os cantos do Brasil. e-mail para contato: kainanismar@gmail.com

A eternidade da vida

  -Não demore Rosemeri! - o tom de voz de sua mãe era áspero, mas Rose sabia muito bem que se tratava da profecia. Quando completou seis anos, apareceu na porta de sua casa uma senhora pedindo por água e abrigo do sol. Sua mãe, que passava os dias atarefada a atendeu com toda atenção e carinho. No começo ficou confusa sobre qual era o destino daquela mulher que a trouxe tão longe nos campos, mas com alguns instantes de conversa e se encantando cada vez mais, ela deixou a questão de lado. -Podemos nos sentar na varanda da casa? - perguntou a senhora - Eu adorei seu quintal, suas flores tão bem cuidadas e as roupas no varal dariam um belo quadro de tão coloridas. A menina ficava em volta da senhora sem se aproximar muito, tinha medo de estranhos. Era chucra e não tinha vergonha disso. Seus pais a ensinaram a desconfiar do mundo e seguir todas as regras à risca. -Mas é claro que sim - respondeu sua mãe - Pegarei um chá gelado para tomarmos. Rosemeri, pegue um banco mais confor...

Como secar roupas em dias de chuva

Estava eu um dia sentado em minha mesa de café, olhando para a porta aberta, o varal com as roupas secando ao sol. Entre as bolachas e as bicadas no chá, me ocorreu pensar sobre como eu secava minhas roupas em um dia de chuva. Nunca havia passado por minha cabeça a realização do processo como um processo, para mim sempre foi natural. Eu lavava as roupas a mão, no tanque atrás da casa. Os ladrilhos azuis e o tanque de porcelana sempre me davam muita satisfação quando os usava, então eu sempre os utilizava contente, sorrindo e cantando. "Em dias de chuva não temos muita vontade de levantar" - minha mãe sempre dizia isto quando nos levantava pela manhã para aprontar-nos para a escola. Costumava discordar de suas afirmações, mas com o tempo percebi que ela mesma quem não gostava nem um pouquinho de se levantar em dias de chuva. Seus olhos não brilhavam tanto quanto quando eu era pequeno e meus seis irmãos ainda não haviam nascido. Depois de um tempo passei a acordar mais cedo...

A maravilhosa mudança na vida de Lady Olívia

Lady Olívia nunca acreditou em si mesma. Vivia uma vida pacata e nada encantadora de horas gastas num trabalho medíocre e noites apagadas em um vinho barato.  Em sua infância fora uma garota quieta e resguardada. Seus pensamentos eram somente seus e seus olhos nunca se aventuraram no infinito acima dos joelhos das outras pessoas. Chamá-la de tímida naquela época era um devaneio vil, por ser a timidez o ato de descobrir o mundo como ele é e encolher-se de surpresa e horror pelo choque de existência, pois que essas coisas para Olívia não passavam de frescura.  Agora adulta e responsável por seus atos, diga-se de passagem, ela sentia que sua vida deveria mudar e que deveria mudar muito. Numa tarde, na livraria onde trabalhava conheceu um homem de meia idade e sua filha. A garota procurava por um livro específico que não encontrava há tempos, mas que por sorte se encontrava naquele estabelecimento. Conversa fiada vai, conversa fiada vem, o homem resolveu comentar que estava pa...

Sol

Eis que em um dia ensolarado percebo sobre mim o sol. Foi uma percepção infantil, algo como quando se aprende a andar. Percebi o sol. Até então eu vivia sendo iluminado por uma estrela milenar e era isso... Nada mais se dizia sobre o assunto. Todos andamos por aí dizendo coisas como: "Esse sol está de matar!", "Onde foi que este sol se escondeu hoje?", "Podíamos ter um solzinho né não?". Entretanto, ninguém tomou conta de sua existência a partir da existência do sol. Ou ao menos é o que eu acredito. Me peguei atordoado com a ideia da luz e do calor. E então naquele momento já não havia mais uma estrela milenar com um nome curto, existia ao invés disso o esclarecimento. Sem pensar de onde veio, ou quem criou, ou até quais os benefícios e malefícios dele, mas percebendo em minha mente o sentimento que ele causava, me vi perdido. Quem seria eu da visão ampla e majestosa do esclarecimento? O que resta de mim quando em mim já não resta um resquício ...

Pacote de Plástico

Já eram onze horas da noite. Ele ainda não estava em casa, esperava. Esperava no frio, no terminal, seu ônibus. Havia naquele dia um número maior de pessoas do que nos outros, algo estranho no ar. Ele olhava as pessoas e não as enxergava. Pensava na frase: "Eu vejo a vida que está em ti, você vê a minha em mim?" O que aquilo queria dizer? Ele estava em outro mundo. De um instante a outro percebeu-se fixamente encarando um pacote de plástico. Já não estava mais no terminal, estava no espaço entre ele e o pacote. Nada mais havia ali. O ônibus não viria. Percebeu também que ao fitar o plástico daquela maneira, ele ignorava. O fazia sentir-se bem. Não havia opressão a sua cor, a sua raça, a sua religião, a sua sexualidade, o seu eu. Era tão somente ele e o plástico. Pacote do que aquilo era? Pertenceu a quem antes de ser jogado no chão? O que ele guardava? Não interessava. O plástico transformou-se em uma metáfora, um refúgio. Tentou desviar o olha...

O mapa do seu coração

Foi uma fase difícil e duradoura Com pratos quebrados e canecas especiais em cacos Foi como andar em um pântano habitado por feras inimagináveis Sempre à noite, sempre chovendo, sempre correndo, sempre chorando.  Milhares de pessoas eu via diariamente e nenhuma delas era você Nenhuma delas traria o terror e a luta do seu coração Nenhuma delas valeria a pena amar quando a manhã chegasse  E de repente éramos nos dois deitados numa cama pequena abraçados pensando. Você respirava pausadamente da maneira que me conquistara. O quarto escuro era iluminado por algo novo e frágil; Amor.  Nós sabíamos que não valeria a pena continuar mornos. Havia necessidade de conflito psíquico, para que o amor não fosse somente um sexo entre pessoas que se consideram amantes... O amor não vinha assim.  A paixão foi criada no dia em que te vi, o amor, anos depois. Havia segredos e escuridão em nossos corações e nosso papel era descobrir todos. Era mapear a dor, ...

O segredo de vida

Era uma sensação estranha Um feixe de luz não apagado Havia algo em um meio vazio Algo que não deveria estar ali Em um corredor branco, somente o enfermo Caminhando para o fim, uma porta, saída Mas até o fim ele não chegaria Pois o fim do corredor estava mais distante que o seu próprio E o sem-teto estava à flor da lua Olhava para o céu e pedia a Deus “O que em mim falta Senhor?  Estarei eu tão longe de sua Graça?” As infinitas ruas esmagadas pelos carros Ouviam os murmúrios do pobre homem sem rumo Caminhavam com ele cobrindo a terra E o homem se deitava cansado, na grama Haveria nos homens um amor escondido? Se houve um dia, pode ser já se perdeu Entretanto, cantando passava um cego Desgraçado de vistas, mas feliz como um rei Motivo de espanto era o homem contente Para o meio, o enfermo, o sem-teto e o asfalto Mas não era ele o personagem principal O cego passara e em algum lugar chegou E no meio dos povos uma borboleta voava Olh...

Silêncio

Esta história fala de uma família comum. Talvez nem tanto pela exuberante quantidade de filhos, mas mantinham uma comunhão padrão. Havia seis garotos e três meninas. Destes nove, somente três nos importam realmente. A filha calada e misteriosa, o garoto problemático e com tendência ao suicídio e o outro, que sempre escrevia tragédias terríveis. Certo dia, o pai bêbado chegou exaltado em casa, cada dia um dos filhos era perturbado por ele e neste, por fatalidade que viria, o suicida foi escolhido. Havia nos fundos da casa uma pequena reforma a ser feita, um pequeno muro a ser remendado. A natureza havia pregado uma peça naqueles miseráveis. Mal dinheiro para a comida eles tinham e o vento, a chuva, destruíram sua casa. Foi então que em um surto, após uma briga com sua esposa, o marido embriagado e a miserável desmaiada, o homem foi a um estabelecimento de venda de materiais de construção e gastou o dinheiro dos alimentos. Uma semana dividindo pão e água com os ratos. Os materiais ali fi...