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Mostrando postagens com o rótulo Arte

O infinito e a tempestade

A sensação era de estar com os olhos fechados, ouvindo um som agudo em um volume extremamente baixo que exigia completa atenção para percebê-lo. A respiração calma com ar suficiente para encher os pulmões toda vez. Quando concentrado ouvia o tom angelical sem dificuldade e era como se estivesse conectado com tudo o que existia em todo lugar. O peito expandido ao máximo para sentir a singela sensação da existência. Em um cosmos distante, flutuava. As estrelas em volta faziam parte de seu corpo, os olhos fechados, os ouvidos que eram feitos de galáxias ouviam.  A experiência de mover as mãos, mesmo que por um centímetro, era como balançar suavemente as mesmas por de baixo d’água. Havia uma pequena resistência que causava sentimento de completude, as mãos que não eram mãos, eram e não eram porque não existiam sem as estrelas, mas o que seriam as estrelas sem as mãos do infinito? Inspirava e expirava com ritmo, mas sem regra. Inspirava e podia ver a escuridão que havia para todos os la...

Beija-Flor

  Beija-Flor está disponível somente no livro 'Folhas ao Vento de Nós'. Este conto foi criado após a conclusão da edição do livro e foi escrito justamente para fechar a sequência de contos. Por isso, este é um exclusivo, visto que ele é uma sumarização de todos os sentimentos que tornaram o manuscrito possível. 'Folhas ao Vento de Nós' está disponível para compra na plataforma da UICLAP  e também em versão digital para Kindle na Amazon . Caso queira a versão em capa dura com ilustrações ainda mais exclusivas, entre em contato que eu mesmo te entrego ou envio para todos os cantos do Brasil. e-mail para contato: kainanismar@gmail.com

Era você ali

A chuva fina caía pausadamente, como se cada gota estivesse aproveitando o máximo a viagem das nuvens até o chão. O sol estava ardente e o clima abafado, mesmo com tantas árvores em volta, aquele era um dia atípico. Um dia de transição, de imortalidade. Marilene tinha por rotina caminhar todas as manhãs logo que o sol nascesse antes de ele se tornar a imensa e insuportável esfera de fogo que sempre foi. Ela tinha por vocação a pintura, pintava quadros absurdos e coloridos sobre mundos desconhecidos e almas perdidas em universos aquarelas. Nesta manhã, decidiu caminhar, não por hábito, mas por ansiedade. Na noite anterior não conseguira dormir com uma imagem que se instalou em sua mente e a importunou até que se materializasse em quadro. A arte que a inspirou era o corpo de uma senhora vestida em tecidos finos e coloridos, desfalecida em um campo verde segurando uma xícara de porcelana envolta em tons de azul que a lembrava do mar, como fosse uma onda que cercou a mulher completamente e...

A eternidade da vida

  -Não demore Rosemeri! - o tom de voz de sua mãe era áspero, mas Rose sabia muito bem que se tratava da profecia. Quando completou seis anos, apareceu na porta de sua casa uma senhora pedindo por água e abrigo do sol. Sua mãe, que passava os dias atarefada a atendeu com toda atenção e carinho. No começo ficou confusa sobre qual era o destino daquela mulher que a trouxe tão longe nos campos, mas com alguns instantes de conversa e se encantando cada vez mais, ela deixou a questão de lado. -Podemos nos sentar na varanda da casa? - perguntou a senhora - Eu adorei seu quintal, suas flores tão bem cuidadas e as roupas no varal dariam um belo quadro de tão coloridas. A menina ficava em volta da senhora sem se aproximar muito, tinha medo de estranhos. Era chucra e não tinha vergonha disso. Seus pais a ensinaram a desconfiar do mundo e seguir todas as regras à risca. -Mas é claro que sim - respondeu sua mãe - Pegarei um chá gelado para tomarmos. Rosemeri, pegue um banco mais confor...

O caçador que sobreviveu ao urso

O caçador nem sempre foi o que é agora. Há algum tempo, quando ainda era criança, não sabia nem ao menos andar na floresta sem se perder nos primeiros minutos. Seus pais, que moravam em uma cabana ao lado da grande floresta, sempre ouviam seus gritos de socorro e saíam logo atrás para mostrar ao pequeno garoto que ele estava a um arbusto de distância de casa. Quando adolescente, tinha medo e ainda se perdia com igual facilidade, mas agora confiava um pouco mais em si mesmo e desenvolveu uma teimosia. -Eu posso muito bem me encontrar e achar o caminho de casa - dizia ele engolindo o choro e secando as lágrimas. Com o passar do tempo essa teimosia e os litros de choro engolidos o tornaram uma pessoa solitária. Suas opções sempre limitadas a seguir um caminho sozinho e descobrir tudo o que pudesse para não depender de ninguém. Quando em casa, no entanto, seus pais o ajudavam com tudo o que precisava. Suas roupas, sempre limpas quando saía para suas andanças; e a caça, seu pai cons...

Como secar roupas em dias de chuva

Estava eu um dia sentado em minha mesa de café, olhando para a porta aberta, o varal com as roupas secando ao sol. Entre as bolachas e as bicadas no chá, me ocorreu pensar sobre como eu secava minhas roupas em um dia de chuva. Nunca havia passado por minha cabeça a realização do processo como um processo, para mim sempre foi natural. Eu lavava as roupas a mão, no tanque atrás da casa. Os ladrilhos azuis e o tanque de porcelana sempre me davam muita satisfação quando os usava, então eu sempre os utilizava contente, sorrindo e cantando. "Em dias de chuva não temos muita vontade de levantar" - minha mãe sempre dizia isto quando nos levantava pela manhã para aprontar-nos para a escola. Costumava discordar de suas afirmações, mas com o tempo percebi que ela mesma quem não gostava nem um pouquinho de se levantar em dias de chuva. Seus olhos não brilhavam tanto quanto quando eu era pequeno e meus seis irmãos ainda não haviam nascido. Depois de um tempo passei a acordar mais cedo...

Descoberta

Caminhava sem pensar em direção à sua casa. Elizabeth era o nome do pássaro imaginário que seguia o homem onde quer que ele fosse. Luís Henrique Felgor é nossa chave, nosso interesse e mistério. Luís naquele dia resolvera caminhar em passos curtos, para conseguir contar os ladrilhos da estrada. A ideia não surgira hoje, o pássaro que sempre rodeava seus pensamentos contava os ladrilhos diária e incansavelmente, repetindo sem desistir: -Sem os ladrilhos contar, como pode você caminhar? 271, 272, 273, é desrespeitoso Luís, esse chão tem história, é desrespeitoso Luís. O homem de meia idade comemora seu aniversário em todo o décimo sétimo dia do terceiro mês do ano, mas este ainda demoraria a chegar. A informação nos ajuda aqui, pois foi no ladrilho 317 que seu pássaro, sem explicação morrera. Observara a ave rodopiar em demasiada lentidão, até em seus pés chegar. Ficou ali, estática, já azul de tão fria, mesmo num dia quente. Como a cena já se punha como estranha, Henrique resolve...