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Mostrando postagens com o rótulo Tristeza

Vindouro

Eu sinto que hoje o dia está um tanto quanto azul. Meus olhos se enchem de água e minha visão turva é abalada pelo ambiente de trabalho onde estou. “Não tenho tempo para isso agora.” Quando desço do ônibus sinto um vazio em meus passos, como se minhas pernas procurassem pelo socorro da morte, mas meu coração sente que ainda não é hora. Chegando em casa o ranger do portão me faz pensar em quanto tempo não amo. Amar nos últimos dias tem sido tarefa difícil porque qualquer faísca deste sentimento me lembra de alguém. Alguém que eu fui talvez? Ou será que o alguém que amei quando ainda não era quem hoje sou? Tenho tanto a dizer para tantos, mas a minha voz engasga e minhas palavras se perdem de medo de dizer a coisa errada. A crença de que não posso errar não é algo que carrego comigo e não é porque me sinto perfeito, mas é que me sinto para sempre inacabado.  “Eu ainda posso tentar outra vez.” Essa frase me motiva e me pega de surpresa, porque ao mesmo tempo em que posso amar de novo,...

O canto solitário

  (Eu só podia te amar - Kainan Santos) Você me deu uma música tão linda e encantadora, mas agora tenho que cantá-la sozinho. A mágica incandescente que transformou minha vida foi um momento para compor uma rima, mas agora me dói tanto. Ainda canto e, às vezes, até sorrio, porque a canção é realmente linda. Tive que me machucar, ferir-me até não sobrar uma célula em paz - todas tiveram que sangrar por você - para entender que nada me fere, somente o que crio em minha mente. Já não espero mais por você, nem por ninguém além de mim. Estive só nos últimos dias, chorei e me curei sozinho, explorei lugares e conheci pessoas, sozinho. Vou te amar para sempre, mas não tenho certeza se amo realmente você. Criei uma versão sua em minha mente, com as mesmas estrias nas costas e o jeito de olhar de cima para o celular quando está interessado. Mas essa versão não me fere nem me esconde do mundo. Tive tanto medo no escuro infinito dessa solidão sem você. Não sabia que podia confiar em mim, cuid...

Anhela Vyctoria

O verão ainda demoraria a chegar, mas ela já temia tudo o que teria de passar- mais uma vez. Seu nome era tão feio quanto seu rosto, Anhela Vyctoria. Seus olhos sempre lacrimejantes já há muito deixaram de preocupar as pessoas à sua volta. No começo, todos achavam que eram lágrimas e tentavam consolá-la incessantemente, ela acabava chorando por isso. Mas depois de um tempo todos notaram que era algo dela, algo para torná-la única, mais do que já era. Tinha um sorriso timidamente belo, mas ninguém era capaz de permitir beleza em uma face tão lúgubre. Só ela notava, nem mesmo sua mãe, ou seu pai, somente ela. Sua paixão era fotografia e desde os três anos ganhava belas revistas de lindas pessoas jovens correndo na praia. Suas imagens favoritas eram as que exibiam lindas mulheres em meio a natureza, junto a animais selvagens e flores ultra coloridas. Anhela sempre teve consciência de que nunca apareceria numa daquelas revistas. A não ser que os animais não estivessem e...

Silêncio

Esta história fala de uma família comum. Talvez nem tanto pela exuberante quantidade de filhos, mas mantinham uma comunhão padrão. Havia seis garotos e três meninas. Destes nove, somente três nos importam realmente. A filha calada e misteriosa, o garoto problemático e com tendência ao suicídio e o outro, que sempre escrevia tragédias terríveis. Certo dia, o pai bêbado chegou exaltado em casa, cada dia um dos filhos era perturbado por ele e neste, por fatalidade que viria, o suicida foi escolhido. Havia nos fundos da casa uma pequena reforma a ser feita, um pequeno muro a ser remendado. A natureza havia pregado uma peça naqueles miseráveis. Mal dinheiro para a comida eles tinham e o vento, a chuva, destruíram sua casa. Foi então que em um surto, após uma briga com sua esposa, o marido embriagado e a miserável desmaiada, o homem foi a um estabelecimento de venda de materiais de construção e gastou o dinheiro dos alimentos. Uma semana dividindo pão e água com os ratos. Os materiais ali fi...

Nuvens

Foi num dia bem cedo em que notei no céu uma coisa estranha, ao menos para mim, muito estranha. O céu que deixei totalmente azul na noite passada hoje acordou com manchas brancas e uniformes. Mas não eram aquelas pequenas meninas branquinhas com as quais eu conversava toda noite e que brilhavam sem parar, estas se moviam e não brilhavam. Quem ou o que seriam elas? Por que invadiam tão atrevidas o céu que me pertencia? Não sei responder. Os dias se passaram e pude observar que as manchas não iam embora, insistentes, ficavam lá passando rápido e me encarando nervosas. ‘O que vocês fazem no meu céu? O que querem?’ gritei a elas para tentar descobrir algo, nada, não me responderam nada. Só o que fizeram foi chorar, choraram amargamente durante quatro dias, estes, que deixaram meu vilarejo totalmente alagado, tinha destruição para todo lado. Aí quem chorou tempestivamente fui eu, fiquei dentro de casa, trancado, num período de seis semanas, só sai algumas vezes para caçar ou pegar lenha, ...