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Mostrando postagens com o rótulo Ficção

Anhela Vyctoria

O verão ainda demoraria a chegar, mas ela já temia tudo o que teria de passar- mais uma vez. Seu nome era tão feio quanto seu rosto, Anhela Vyctoria. Seus olhos sempre lacrimejantes já há muito deixaram de preocupar as pessoas à sua volta. No começo, todos achavam que eram lágrimas e tentavam consolá-la incessantemente, ela acabava chorando por isso. Mas depois de um tempo todos notaram que era algo dela, algo para torná-la única, mais do que já era. Tinha um sorriso timidamente belo, mas ninguém era capaz de permitir beleza em uma face tão lúgubre. Só ela notava, nem mesmo sua mãe, ou seu pai, somente ela. Sua paixão era fotografia e desde os três anos ganhava belas revistas de lindas pessoas jovens correndo na praia. Suas imagens favoritas eram as que exibiam lindas mulheres em meio a natureza, junto a animais selvagens e flores ultra coloridas. Anhela sempre teve consciência de que nunca apareceria numa daquelas revistas. A não ser que os animais não estivessem e...

Pacote de Plástico

Já eram onze horas da noite. Ele ainda não estava em casa, esperava. Esperava no frio, no terminal, seu ônibus. Havia naquele dia um número maior de pessoas do que nos outros, algo estranho no ar. Ele olhava as pessoas e não as enxergava. Pensava na frase: "Eu vejo a vida que está em ti, você vê a minha em mim?" O que aquilo queria dizer? Ele estava em outro mundo. De um instante a outro percebeu-se fixamente encarando um pacote de plástico. Já não estava mais no terminal, estava no espaço entre ele e o pacote. Nada mais havia ali. O ônibus não viria. Percebeu também que ao fitar o plástico daquela maneira, ele ignorava. O fazia sentir-se bem. Não havia opressão a sua cor, a sua raça, a sua religião, a sua sexualidade, o seu eu. Era tão somente ele e o plástico. Pacote do que aquilo era? Pertenceu a quem antes de ser jogado no chão? O que ele guardava? Não interessava. O plástico transformou-se em uma metáfora, um refúgio. Tentou desviar o olha...

O mapa do seu coração

Foi uma fase difícil e duradoura Com pratos quebrados e canecas especiais em cacos Foi como andar em um pântano habitado por feras inimagináveis Sempre à noite, sempre chovendo, sempre correndo, sempre chorando.  Milhares de pessoas eu via diariamente e nenhuma delas era você Nenhuma delas traria o terror e a luta do seu coração Nenhuma delas valeria a pena amar quando a manhã chegasse  E de repente éramos nos dois deitados numa cama pequena abraçados pensando. Você respirava pausadamente da maneira que me conquistara. O quarto escuro era iluminado por algo novo e frágil; Amor.  Nós sabíamos que não valeria a pena continuar mornos. Havia necessidade de conflito psíquico, para que o amor não fosse somente um sexo entre pessoas que se consideram amantes... O amor não vinha assim.  A paixão foi criada no dia em que te vi, o amor, anos depois. Havia segredos e escuridão em nossos corações e nosso papel era descobrir todos. Era mapear a dor, ...

O segredo de vida

Era uma sensação estranha Um feixe de luz não apagado Havia algo em um meio vazio Algo que não deveria estar ali Em um corredor branco, somente o enfermo Caminhando para o fim, uma porta, saída Mas até o fim ele não chegaria Pois o fim do corredor estava mais distante que o seu próprio E o sem-teto estava à flor da lua Olhava para o céu e pedia a Deus “O que em mim falta Senhor?  Estarei eu tão longe de sua Graça?” As infinitas ruas esmagadas pelos carros Ouviam os murmúrios do pobre homem sem rumo Caminhavam com ele cobrindo a terra E o homem se deitava cansado, na grama Haveria nos homens um amor escondido? Se houve um dia, pode ser já se perdeu Entretanto, cantando passava um cego Desgraçado de vistas, mas feliz como um rei Motivo de espanto era o homem contente Para o meio, o enfermo, o sem-teto e o asfalto Mas não era ele o personagem principal O cego passara e em algum lugar chegou E no meio dos povos uma borboleta voava Olh...

Silêncio

Esta história fala de uma família comum. Talvez nem tanto pela exuberante quantidade de filhos, mas mantinham uma comunhão padrão. Havia seis garotos e três meninas. Destes nove, somente três nos importam realmente. A filha calada e misteriosa, o garoto problemático e com tendência ao suicídio e o outro, que sempre escrevia tragédias terríveis. Certo dia, o pai bêbado chegou exaltado em casa, cada dia um dos filhos era perturbado por ele e neste, por fatalidade que viria, o suicida foi escolhido. Havia nos fundos da casa uma pequena reforma a ser feita, um pequeno muro a ser remendado. A natureza havia pregado uma peça naqueles miseráveis. Mal dinheiro para a comida eles tinham e o vento, a chuva, destruíram sua casa. Foi então que em um surto, após uma briga com sua esposa, o marido embriagado e a miserável desmaiada, o homem foi a um estabelecimento de venda de materiais de construção e gastou o dinheiro dos alimentos. Uma semana dividindo pão e água com os ratos. Os materiais ali fi...

Momento Importante

Nós estávamos à mesa num jantar entre velas Nos olhávamos com paixão e queríamos amar Ela entreabriu sua boca e evitou o dizer Seus lábios se apertaram e seus olhos brilharam   Eu a vi olhar o relógio, o tempo passava Decidi tê-la em meus braços, porém me acanhei Senti uma brisa da janela aberta quando seus cabelos se moveram Eram um tipo de fogo, seus cabelos tão ruivos   Disse a ela sobre meu dia e ela assentiu Contou-me de seu dia e eu me diverti Sorrimos tão tímidos e suspiramos por fim Olhamos para o lado, eu direita e ela esquerda   Bebi um pouco do vinho, coisa que ela também fez Elogiamos a bebida e conversamos sobre seus pais O macarrão estava intocado, não sentíamos fome O ar que nos envolvia era quente e silencioso Estávamos em conforto   No rádio sua música começara a tocar E seus olhos mostraram a emoção aflorar Levantei-me sem jeito e aumentei o volume Sentei-me em seu lado e a envolvi em meus braços ...