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Mostrando postagens com o rótulo Contos

Era você ali

A chuva fina caía pausadamente, como se cada gota estivesse aproveitando o máximo a viagem das nuvens até o chão. O sol estava ardente e o clima abafado, mesmo com tantas árvores em volta, aquele era um dia atípico. Um dia de transição, de imortalidade. Marilene tinha por rotina caminhar todas as manhãs logo que o sol nascesse antes de ele se tornar a imensa e insuportável esfera de fogo que sempre foi. Ela tinha por vocação a pintura, pintava quadros absurdos e coloridos sobre mundos desconhecidos e almas perdidas em universos aquarelas. Nesta manhã, decidiu caminhar, não por hábito, mas por ansiedade. Na noite anterior não conseguira dormir com uma imagem que se instalou em sua mente e a importunou até que se materializasse em quadro. A arte que a inspirou era o corpo de uma senhora vestida em tecidos finos e coloridos, desfalecida em um campo verde segurando uma xícara de porcelana envolta em tons de azul que a lembrava do mar, como fosse uma onda que cercou a mulher completamente e...

A eternidade da vida

  -Não demore Rosemeri! - o tom de voz de sua mãe era áspero, mas Rose sabia muito bem que se tratava da profecia. Quando completou seis anos, apareceu na porta de sua casa uma senhora pedindo por água e abrigo do sol. Sua mãe, que passava os dias atarefada a atendeu com toda atenção e carinho. No começo ficou confusa sobre qual era o destino daquela mulher que a trouxe tão longe nos campos, mas com alguns instantes de conversa e se encantando cada vez mais, ela deixou a questão de lado. -Podemos nos sentar na varanda da casa? - perguntou a senhora - Eu adorei seu quintal, suas flores tão bem cuidadas e as roupas no varal dariam um belo quadro de tão coloridas. A menina ficava em volta da senhora sem se aproximar muito, tinha medo de estranhos. Era chucra e não tinha vergonha disso. Seus pais a ensinaram a desconfiar do mundo e seguir todas as regras à risca. -Mas é claro que sim - respondeu sua mãe - Pegarei um chá gelado para tomarmos. Rosemeri, pegue um banco mais confor...

O caçador que sobreviveu ao urso

O caçador nem sempre foi o que é agora. Há algum tempo, quando ainda era criança, não sabia nem ao menos andar na floresta sem se perder nos primeiros minutos. Seus pais, que moravam em uma cabana ao lado da grande floresta, sempre ouviam seus gritos de socorro e saíam logo atrás para mostrar ao pequeno garoto que ele estava a um arbusto de distância de casa. Quando adolescente, tinha medo e ainda se perdia com igual facilidade, mas agora confiava um pouco mais em si mesmo e desenvolveu uma teimosia. -Eu posso muito bem me encontrar e achar o caminho de casa - dizia ele engolindo o choro e secando as lágrimas. Com o passar do tempo essa teimosia e os litros de choro engolidos o tornaram uma pessoa solitária. Suas opções sempre limitadas a seguir um caminho sozinho e descobrir tudo o que pudesse para não depender de ninguém. Quando em casa, no entanto, seus pais o ajudavam com tudo o que precisava. Suas roupas, sempre limpas quando saía para suas andanças; e a caça, seu pai cons...

Como secar roupas em dias de chuva

Estava eu um dia sentado em minha mesa de café, olhando para a porta aberta, o varal com as roupas secando ao sol. Entre as bolachas e as bicadas no chá, me ocorreu pensar sobre como eu secava minhas roupas em um dia de chuva. Nunca havia passado por minha cabeça a realização do processo como um processo, para mim sempre foi natural. Eu lavava as roupas a mão, no tanque atrás da casa. Os ladrilhos azuis e o tanque de porcelana sempre me davam muita satisfação quando os usava, então eu sempre os utilizava contente, sorrindo e cantando. "Em dias de chuva não temos muita vontade de levantar" - minha mãe sempre dizia isto quando nos levantava pela manhã para aprontar-nos para a escola. Costumava discordar de suas afirmações, mas com o tempo percebi que ela mesma quem não gostava nem um pouquinho de se levantar em dias de chuva. Seus olhos não brilhavam tanto quanto quando eu era pequeno e meus seis irmãos ainda não haviam nascido. Depois de um tempo passei a acordar mais cedo...

Descoberta

Caminhava sem pensar em direção à sua casa. Elizabeth era o nome do pássaro imaginário que seguia o homem onde quer que ele fosse. Luís Henrique Felgor é nossa chave, nosso interesse e mistério. Luís naquele dia resolvera caminhar em passos curtos, para conseguir contar os ladrilhos da estrada. A ideia não surgira hoje, o pássaro que sempre rodeava seus pensamentos contava os ladrilhos diária e incansavelmente, repetindo sem desistir: -Sem os ladrilhos contar, como pode você caminhar? 271, 272, 273, é desrespeitoso Luís, esse chão tem história, é desrespeitoso Luís. O homem de meia idade comemora seu aniversário em todo o décimo sétimo dia do terceiro mês do ano, mas este ainda demoraria a chegar. A informação nos ajuda aqui, pois foi no ladrilho 317 que seu pássaro, sem explicação morrera. Observara a ave rodopiar em demasiada lentidão, até em seus pés chegar. Ficou ali, estática, já azul de tão fria, mesmo num dia quente. Como a cena já se punha como estranha, Henrique resolve...

A maravilhosa mudança na vida de Lady Olívia

Lady Olívia nunca acreditou em si mesma. Vivia uma vida pacata e nada encantadora de horas gastas num trabalho medíocre e noites apagadas em um vinho barato.  Em sua infância fora uma garota quieta e resguardada. Seus pensamentos eram somente seus e seus olhos nunca se aventuraram no infinito acima dos joelhos das outras pessoas. Chamá-la de tímida naquela época era um devaneio vil, por ser a timidez o ato de descobrir o mundo como ele é e encolher-se de surpresa e horror pelo choque de existência, pois que essas coisas para Olívia não passavam de frescura.  Agora adulta e responsável por seus atos, diga-se de passagem, ela sentia que sua vida deveria mudar e que deveria mudar muito. Numa tarde, na livraria onde trabalhava conheceu um homem de meia idade e sua filha. A garota procurava por um livro específico que não encontrava há tempos, mas que por sorte se encontrava naquele estabelecimento. Conversa fiada vai, conversa fiada vem, o homem resolveu comentar que estava pa...

Sol

Eis que em um dia ensolarado percebo sobre mim o sol. Foi uma percepção infantil, algo como quando se aprende a andar. Percebi o sol. Até então eu vivia sendo iluminado por uma estrela milenar e era isso... Nada mais se dizia sobre o assunto. Todos andamos por aí dizendo coisas como: "Esse sol está de matar!", "Onde foi que este sol se escondeu hoje?", "Podíamos ter um solzinho né não?". Entretanto, ninguém tomou conta de sua existência a partir da existência do sol. Ou ao menos é o que eu acredito. Me peguei atordoado com a ideia da luz e do calor. E então naquele momento já não havia mais uma estrela milenar com um nome curto, existia ao invés disso o esclarecimento. Sem pensar de onde veio, ou quem criou, ou até quais os benefícios e malefícios dele, mas percebendo em minha mente o sentimento que ele causava, me vi perdido. Quem seria eu da visão ampla e majestosa do esclarecimento? O que resta de mim quando em mim já não resta um resquício ...