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Mostrando postagens com o rótulo Drama

Vindouro

Eu sinto que hoje o dia está um tanto quanto azul. Meus olhos se enchem de água e minha visão turva é abalada pelo ambiente de trabalho onde estou. “Não tenho tempo para isso agora.” Quando desço do ônibus sinto um vazio em meus passos, como se minhas pernas procurassem pelo socorro da morte, mas meu coração sente que ainda não é hora. Chegando em casa o ranger do portão me faz pensar em quanto tempo não amo. Amar nos últimos dias tem sido tarefa difícil porque qualquer faísca deste sentimento me lembra de alguém. Alguém que eu fui talvez? Ou será que o alguém que amei quando ainda não era quem hoje sou? Tenho tanto a dizer para tantos, mas a minha voz engasga e minhas palavras se perdem de medo de dizer a coisa errada. A crença de que não posso errar não é algo que carrego comigo e não é porque me sinto perfeito, mas é que me sinto para sempre inacabado.  “Eu ainda posso tentar outra vez.” Essa frase me motiva e me pega de surpresa, porque ao mesmo tempo em que posso amar de novo,...

O carteiro

Sabia quando acordou às quatro da manhã que aquele seria um dia difícil. Mandou mensagem para sua amiga que nunca respondia, mas que sempre aparecia quando ela precisava de ajuda.  "Eu sei que hoje não será fácil pra mim, você poderia por favor aparecer?"  A mensagem apareceu como enviada às quatro e doze da manhã, recebida às quatro e trinta e seis e visualizada às quatro e cinquenta e dois.  Levantou-se, pois sabia que seria inútil tentar voltar a dormir, seus sonhos a abandonavam quando sua mente estava para receber uma tempestade.  Até o momento era só um pressentimento numa Quarta-Feira de Cinzas em que tantas memórias rastejavam sórdidas para os confins de sua cabeça.  Seu gato estava fora, havia dormido no telhado novamente com toda a certeza. O gato, assim como a dona, adorava contemplar a vista das árvores à frente da casa. A mulher que agora caminhava lentamente para a cozinha, com todo o receio de quebrar seu quadril, podia sentir o cheiro do chá de m...

Anhela Vyctoria

O verão ainda demoraria a chegar, mas ela já temia tudo o que teria de passar- mais uma vez. Seu nome era tão feio quanto seu rosto, Anhela Vyctoria. Seus olhos sempre lacrimejantes já há muito deixaram de preocupar as pessoas à sua volta. No começo, todos achavam que eram lágrimas e tentavam consolá-la incessantemente, ela acabava chorando por isso. Mas depois de um tempo todos notaram que era algo dela, algo para torná-la única, mais do que já era. Tinha um sorriso timidamente belo, mas ninguém era capaz de permitir beleza em uma face tão lúgubre. Só ela notava, nem mesmo sua mãe, ou seu pai, somente ela. Sua paixão era fotografia e desde os três anos ganhava belas revistas de lindas pessoas jovens correndo na praia. Suas imagens favoritas eram as que exibiam lindas mulheres em meio a natureza, junto a animais selvagens e flores ultra coloridas. Anhela sempre teve consciência de que nunca apareceria numa daquelas revistas. A não ser que os animais não estivessem e...

Silêncio

Esta história fala de uma família comum. Talvez nem tanto pela exuberante quantidade de filhos, mas mantinham uma comunhão padrão. Havia seis garotos e três meninas. Destes nove, somente três nos importam realmente. A filha calada e misteriosa, o garoto problemático e com tendência ao suicídio e o outro, que sempre escrevia tragédias terríveis. Certo dia, o pai bêbado chegou exaltado em casa, cada dia um dos filhos era perturbado por ele e neste, por fatalidade que viria, o suicida foi escolhido. Havia nos fundos da casa uma pequena reforma a ser feita, um pequeno muro a ser remendado. A natureza havia pregado uma peça naqueles miseráveis. Mal dinheiro para a comida eles tinham e o vento, a chuva, destruíram sua casa. Foi então que em um surto, após uma briga com sua esposa, o marido embriagado e a miserável desmaiada, o homem foi a um estabelecimento de venda de materiais de construção e gastou o dinheiro dos alimentos. Uma semana dividindo pão e água com os ratos. Os materiais ali fi...

O egoísmo refletivo

Não estou evitando a confusão, caros, só estou deixando o causador dela cair por si só. Não estou criticando, só estou lhe mostrando um novo caminho. Não estou com inveja, só não quero perder a razão de ser único. Não estou com medo, só não conheço o que vem por aí. Não crio aversões sobre quem sou, pois querendo ou não, eu sempre serei o mesmo. Não enfrento nada por ninguém, os problemas que tenho já me bastam. Não sou mascarado, isto é somente a visão do mundo sobre mim. Não sou mentalmente dissimulado, só enxergo o mundo de uma maneira diferente. Agora! Sim! Posso dizer estou feliz... Não existem mais tabus, isto é, não há o que você não possa fazer. TUDO está ao seu alcance. Mas aproveite bem, pois neste jogo de azar, você só possui uma vida. E ninguém está disposto a renunciar a nada por você!

Eu...

Eu ouvi rumores de que tudo se acabou. Eu ouvi dizer que as pessoas estão se escondendo em suas casas por medo. Eu escutei a falta dos pássaros e senti um leve calafrio em meu corpo. Eu desejei as cores que já não havia. Eu chorei de raiva por minha raça. Eu senti a dor inacabada de um ser humano e senti o corpo cujo, a pele se desfazia. Eu criei expectativas e as perdi pra mim mesmo e não as recuperei. Eu vivi o vento, lembrei-me da época em que éramos livres. Eu gozei alegria da face superada e singelamente sorri para o caos. Eu ajudei a esperança a se levantar, mas ela tombou. Eu perdi as letras e meus dedos, encontrei as palavras e minha voz. Eu dedurei a fama e ela me jurou a cabeça. Eu sonhei acordado por dormir na vida. Eu manipulei olhares e eles me tiraram a consciência. Eu cresci despedaçado, ajuntei meus restos quando pude. Eu pintei o oito e ganhei o sobreviver. Eu critiquei o tempo e despertei a morte. Eu depilei a poesia e pude ver sua b...