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Quanto tempo vive uma flor

  No começo sempre é estranho. A semente nunca se parece com a flor já crescida, não há nenhum indício se será uma rosa ou uma tulipa. No começo é uma troca intensa e incessante. A flor é lembrada durante o dia quando estamos longe, trabalhando, estudando, vivendo... Pensamos se talvez ela não queira um pouco d’água, ou talvez algum adubo para a fortalecer. Quando vamos ao mercado lembramos dela, o que será que levo? Flores gostam de ovos de codorna em conserva? Não saberia dizer. Enfim a planta aparece em seu vaso, a primeira folhinha despontando no pequeno caule frágil. Agora tem de se tomar mais cuidado ainda. Vou lembrar ela todo dia de que a beleza dela existe porque eu existo e eu existo porque ela existe. Se ela for forte nos invernos, vão dizer que as plantas imitam seus donos. E eu não sou dono de ti, nós somos parceiros, concordando em nos abençoar com o cuidado e carinho do outro. Quando te rego te lembro disso, toda vez. Às vezes me pergunto se estás viva porque te rego...

Como secar roupas em dias de chuva

Estava eu um dia sentado em minha mesa de café, olhando para a porta aberta, o varal com as roupas secando ao sol. Entre as bolachas e as bicadas no chá, me ocorreu pensar sobre como eu secava minhas roupas em um dia de chuva. Nunca havia passado por minha cabeça a realização do processo como um processo, para mim sempre foi natural. Eu lavava as roupas a mão, no tanque atrás da casa. Os ladrilhos azuis e o tanque de porcelana sempre me davam muita satisfação quando os usava, então eu sempre os utilizava contente, sorrindo e cantando. "Em dias de chuva não temos muita vontade de levantar" - minha mãe sempre dizia isto quando nos levantava pela manhã para aprontar-nos para a escola. Costumava discordar de suas afirmações, mas com o tempo percebi que ela mesma quem não gostava nem um pouquinho de se levantar em dias de chuva. Seus olhos não brilhavam tanto quanto quando eu era pequeno e meus seis irmãos ainda não haviam nascido. Depois de um tempo passei a acordar mais cedo...

Descoberta

Caminhava sem pensar em direção à sua casa. Elizabeth era o nome do pássaro imaginário que seguia o homem onde quer que ele fosse. Luís Henrique Felgor é nossa chave, nosso interesse e mistério. Luís naquele dia resolvera caminhar em passos curtos, para conseguir contar os ladrilhos da estrada. A ideia não surgira hoje, o pássaro que sempre rodeava seus pensamentos contava os ladrilhos diária e incansavelmente, repetindo sem desistir: -Sem os ladrilhos contar, como pode você caminhar? 271, 272, 273, é desrespeitoso Luís, esse chão tem história, é desrespeitoso Luís. O homem de meia idade comemora seu aniversário em todo o décimo sétimo dia do terceiro mês do ano, mas este ainda demoraria a chegar. A informação nos ajuda aqui, pois foi no ladrilho 317 que seu pássaro, sem explicação morrera. Observara a ave rodopiar em demasiada lentidão, até em seus pés chegar. Ficou ali, estática, já azul de tão fria, mesmo num dia quente. Como a cena já se punha como estranha, Henrique resolve...

A maravilhosa mudança na vida de Lady Olívia

Lady Olívia nunca acreditou em si mesma. Vivia uma vida pacata e nada encantadora de horas gastas num trabalho medíocre e noites apagadas em um vinho barato.  Em sua infância fora uma garota quieta e resguardada. Seus pensamentos eram somente seus e seus olhos nunca se aventuraram no infinito acima dos joelhos das outras pessoas. Chamá-la de tímida naquela época era um devaneio vil, por ser a timidez o ato de descobrir o mundo como ele é e encolher-se de surpresa e horror pelo choque de existência, pois que essas coisas para Olívia não passavam de frescura.  Agora adulta e responsável por seus atos, diga-se de passagem, ela sentia que sua vida deveria mudar e que deveria mudar muito. Numa tarde, na livraria onde trabalhava conheceu um homem de meia idade e sua filha. A garota procurava por um livro específico que não encontrava há tempos, mas que por sorte se encontrava naquele estabelecimento. Conversa fiada vai, conversa fiada vem, o homem resolveu comentar que estava pa...

Sol

Eis que em um dia ensolarado percebo sobre mim o sol. Foi uma percepção infantil, algo como quando se aprende a andar. Percebi o sol. Até então eu vivia sendo iluminado por uma estrela milenar e era isso... Nada mais se dizia sobre o assunto. Todos andamos por aí dizendo coisas como: "Esse sol está de matar!", "Onde foi que este sol se escondeu hoje?", "Podíamos ter um solzinho né não?". Entretanto, ninguém tomou conta de sua existência a partir da existência do sol. Ou ao menos é o que eu acredito. Me peguei atordoado com a ideia da luz e do calor. E então naquele momento já não havia mais uma estrela milenar com um nome curto, existia ao invés disso o esclarecimento. Sem pensar de onde veio, ou quem criou, ou até quais os benefícios e malefícios dele, mas percebendo em minha mente o sentimento que ele causava, me vi perdido. Quem seria eu da visão ampla e majestosa do esclarecimento? O que resta de mim quando em mim já não resta um resquício ...