O verão ainda demoraria a chegar, mas
ela já temia tudo o que teria de passar- mais uma vez.
Seu nome era tão feio quanto seu rosto,
Anhela Vyctoria.
Seus olhos sempre lacrimejantes já há
muito deixaram de preocupar as pessoas à sua volta.
No começo, todos achavam que eram
lágrimas e tentavam consolá-la incessantemente, ela acabava chorando por isso.
Mas depois de um tempo todos notaram
que era algo dela, algo para torná-la única, mais do que já era.
Tinha um sorriso timidamente belo, mas
ninguém era capaz de permitir beleza em uma face tão lúgubre.
Só ela notava, nem mesmo sua mãe, ou
seu pai, somente ela.
Sua paixão era fotografia e desde os
três anos ganhava belas revistas de lindas pessoas jovens correndo na praia.
Suas imagens favoritas eram as que
exibiam lindas mulheres em meio a natureza, junto a animais selvagens e flores
ultra coloridas.
Anhela sempre teve consciência de que
nunca apareceria numa daquelas revistas.
A não ser que os animais não estivessem
exóticos o suficiente.
Seu quarto se resumia em uma cama, uma
escrivaninha, sua cadeira confortável, seu armário abaixo da janela e pilhas e pilhas
de revistas e mais revistas.
Por vezes ela rasgava as páginas com as
pessoas mais bonitas e se enrolava em sua cama com todas elas.
Fechava os olhos e implorava a Deus
para que um pouco da beleza de todas aquelas pessoas passasse para ela.
Nunca aconteceu, nem aconteceria.
"Tenho consciência disso."
Sua mãe lhe ensinara aquela frase. Para
nunca se ferir quando alguém se percebe a aparência dela.
Quando estava feliz, Anhela tinha
o costume de recortar seus lábios de suas fotos e colar no rosto das belas
garotas das revistas.
E quando estava triste, Anhela
tinha o costume de recortar seus lábios de suas fotos e colar na cara dos
animais selvagens,
Porque até no rosto deles seu sorriso
ficava melhor.
Psicólogos diziam que era depressão...
Religiosos possessão...
Leigos diziam que era feiura crônica...
E Anhela não tinha nada a dizer.
-Poxa vida! - pensava ela aos gritos-
Eu tiro fotografias tão lindas, componho músicas tão belas e cozinho comidas
tão deliciosas! Por que ninguém gosta de mim?
Seu valor e suas habilidades eram
anulados todas as vezes que ela via seu reflexo.
Quando observava seu rosto no espelho,
a menina pensava em quão poucas seriam as cirurgias necessárias para corrigir
seu rosto.
Enquanto ouvia seus pais brigando
porque não tinham mais dinheiro para comprar comida ou o que quer que fosse...
"Tenho consciência disso."
Talvez a morte fosse melhor para ela,
mas deveria ser indolor.
Passaram-se os anos e Anhela nunca
notava melhora em seu rosto, apenas diferença, pela idade.
Aos 20 sua pele era um pouco menos
espinhenta e enrugada dos que aos 15.
Aos 30 sua pele era enrugada e
espinhenta novamente, mas como sua idade, a feiura também dobrara.
Aos 40 seus pais morreram, ambos em um
acidente de carro.
Anhela temia pensar sobre a morte dos
dois, pois por alguns instantes desejara que aquilo acontecesse.
"Você acha que a levaremos para
praia Anhela? Não queremos ter que te arrastar em uma coleira para disfarçar a
vergonha que é ter você!"
Talvez a consciência de seu pai tenha
pesado um pouco, pois ele vira que as palavras de sua mãe haviam a perturbado
demais.
Mas era tolice, somente ela tinha
consciência das coisas.
Aos 40 Anhela poderia ter se aposentado,
não fossem seus documentos para revelar sua verdadeira idade. Aos quarenta
Anhela conhecera o que era o amor, num jogo de bingo.
Com vários velhos desprezíveis que ela
já havia conhecido no passado, ela avistara Leon Guilhermino.
"Velhos são velhos. Não há beleza
neles."
Pela primeira vez Anhela se
sentira aceita.
Não era feiura, pensavam os outros,
talvez quando ela era jovem fosse bonita, é a idade.
Leon era cego. E velho. E cego.
Sua história também comoveria se sua
vida fosse interessante o suficiente para ser contada.
Mas em suma, ele fora um jovem órfão
largado na sarjeta do mundo para sobreviver a miserável vida que lhe fora
oferecida.
Anhela, com o passar dos anos, ganhara
uma bela voz. De tanto insistir que conseguia cantar, Deus resolverá a abençoar
com a dádiva da música.
Cantava nos bingos a noite nos fins de
semana.
E Leon, que conseguirá se estabelecer
suficientemente bem na vida para se manter em uma grande casa com carro e um
saudável cachorro, se encantara.
"Sereias podem não ser belas, seu
canto é quem faz o trabalho na hora de conquistar um homem, seu canto me
conquistou Anhela."
Anhela nunca ouvira palavras tão doces
quando alguém se referia à sua imagem.
É claro que ela teve de se descrever
para ele, mas não diria a verdade.
Seus amigos, velhos mal-amados, fizeram
a descrição completa como um favor a ela.
Mesmo ouvindo tais barbaridades, Leon
resolveu amá-la.
Mesmo tendo morrido uma semana depois
daquela noite, Leon a amara intensamente.
Nem sua mãe a amara tanto, nem seu pai,
nem seus irmãos já mortos foram capazes de amá-la mais do que Leon a amara em
uma semana.
Aos 70 Anhela comprou um buquê de
flores para si e a partir deste dia passou a comprar buquês todos os domingos,
como presente de vitória por ter sobrevivido mais do que todos os seus
"amigos" do bingo.
Aos 80 Anhela começara a escrever
cartas para o Leon. Acordava todos os dias acreditando que ele havia morrido no
dia anterior. Escrevia cartas extremamente dolorosas e românticas.
Aos 90 Anhela já não andava e nem sabia
onde estava ou quem cuidava dela para ainda sobreviver.
Aos 92 Anhela sabia que já tinha visto
demais da vida e decidiu dormir para não mais acordar.
Quando estava a fechar seus olhos numa
maca estreita e fria uma enfermeira qualquer viera e dissera qualquer coisa que
ela não entendera.
"Tenho consciência disso."
Suspirou lenta e profundamente e
dormiu, para seu eterno descanso. Pois a solidão já lhe havia dado 92 anos de
tormenta.
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