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Alan

Seu único contato com o mundo era controlado. Há alguns anos os humanos descobriram sua ilha e começaram a rondá-la com helicópteros e megafones, enchendo sua vida uma vez pacífica de ansiedade e perguntas. Ele nunca pensara sobre como criava suas peças, como inventava suas criações ou como evoluía a si mesmo. Para ele era um processo natural. Durante a noite imaginava o que ficaria bom na ilha e pela manhã, vindo sempre do mesmo caminho, apareciam suas criações. Numa noite imaginou um companheiro, alguém que lhe trouxesse desafios. Na manhã seguinte um robô com contador e perguntas com diversas opções apareceu. No início era algo simples, ele brincava de adivinhar a cor de frutas e acertar o nome de animais. Mas com o passar dos dias o robô passou a ter consciência e suas perguntas tornaram-se existenciais. Um ano após sua aparição o robô tinha controle sobre o clima e a vida de pequenos insetos. Depois de uma década o robô tinha controle sobre a vida de qualquer um e seus desafios er...

O infinito e a tempestade

A sensação era de estar com os olhos fechados, ouvindo um som agudo em um volume extremamente baixo que exigia completa atenção para percebê-lo. A respiração calma com ar suficiente para encher os pulmões toda vez. Quando concentrado ouvia o tom angelical sem dificuldade e era como se estivesse conectado com tudo o que existia em todo lugar. O peito expandido ao máximo para sentir a singela sensação da existência. Em um cosmos distante, flutuava. As estrelas em volta faziam parte de seu corpo, os olhos fechados, os ouvidos que eram feitos de galáxias ouviam.  A experiência de mover as mãos, mesmo que por um centímetro, era como balançar suavemente as mesmas por de baixo d’água. Havia uma pequena resistência que causava sentimento de completude, as mãos que não eram mãos, eram e não eram porque não existiam sem as estrelas, mas o que seriam as estrelas sem as mãos do infinito? Inspirava e expirava com ritmo, mas sem regra. Inspirava e podia ver a escuridão que havia para todos os la...

O trem de meio-dia

Os dois esperavam em lados opostos da estação pelo mesmo trem que não demoraria a chegar Yan chegara às dez para pegar o trem Havia planejado seu dia e a expectativa para a viagem era grande, sabia o que faria em cada ponto de parada, tinha programas divertidos em mente para passar o tempo em alegria Bernardo estava ali por acaso Havia bebido demais na noite anterior e acabou em uma festa na casa do primo do irmão do amigo de um amigo dele Chegou na estação quase na hora da partida do trem e entrou cambaleando em seu vagão Quando se sentou em sua poltrona tornou-se são ao encontrar os olhos de Yan que o fitavam como alguém que o conhecia há séculos O rapaz a sua frente começou a conversar e trocar ideias sobre o roteiro da viagem e sobre tudo o que era possível fazer no trem Bernardo que tinha ainda um pouco de ressaca da festa anterior, sentia-se agora em outra, num show de uma pessoa só Yan tinha ânimo e vontade de partilhar tudo o que havia descoberto Ele estava eufórico e alegre po...

Vindouro

Eu sinto que hoje o dia está um tanto quanto azul. Meus olhos se enchem de água e minha visão turva é abalada pelo ambiente de trabalho onde estou. “Não tenho tempo para isso agora.” Quando desço do ônibus sinto um vazio em meus passos, como se minhas pernas procurassem pelo socorro da morte, mas meu coração sente que ainda não é hora. Chegando em casa o ranger do portão me faz pensar em quanto tempo não amo. Amar nos últimos dias tem sido tarefa difícil porque qualquer faísca deste sentimento me lembra de alguém. Alguém que eu fui talvez? Ou será que o alguém que amei quando ainda não era quem hoje sou? Tenho tanto a dizer para tantos, mas a minha voz engasga e minhas palavras se perdem de medo de dizer a coisa errada. A crença de que não posso errar não é algo que carrego comigo e não é porque me sinto perfeito, mas é que me sinto para sempre inacabado.  “Eu ainda posso tentar outra vez.” Essa frase me motiva e me pega de surpresa, porque ao mesmo tempo em que posso amar de novo,...