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Anhela Vyctoria

O verão ainda demoraria a chegar, mas ela já temia tudo o que teria de passar- mais uma vez. Seu nome era tão feio quanto seu rosto, Anhela Vyctoria. Seus olhos sempre lacrimejantes já há muito deixaram de preocupar as pessoas à sua volta. No começo, todos achavam que eram lágrimas e tentavam consolá-la incessantemente, ela acabava chorando por isso. Mas depois de um tempo todos notaram que era algo dela, algo para torná-la única, mais do que já era. Tinha um sorriso timidamente belo, mas ninguém era capaz de permitir beleza em uma face tão lúgubre. Só ela notava, nem mesmo sua mãe, ou seu pai, somente ela. Sua paixão era fotografia e desde os três anos ganhava belas revistas de lindas pessoas jovens correndo na praia. Suas imagens favoritas eram as que exibiam lindas mulheres em meio a natureza, junto a animais selvagens e flores ultra coloridas. Anhela sempre teve consciência de que nunca apareceria numa daquelas revistas. A não ser que os animais não estivessem e...

Imergindo

Devia ser um sono bem leve o qual você estava Toquei sua orelha com os lábios para que visse A borboleta na janela do quarto Quão belo inseto de asas vermelho-brancas Você abriu os olhos e beijou-me suavemente As cortinas balançavam com o vento do verão E a borboleta ali, quieta, observando-nos O sol estava a altura de nossa janela Com seus raios enlaçando-nos Deitei-me ao seu lado olhando para o teto Fechei os olhos e respirei o ar fresco de seu perfume Não havia barulho. Havia som. Canto. Chamei por seu nome e ele ecoará em mim Imergiu-se. Aquele momento era uma pintura Um pedaço do paraíso na terra Naquela manhã era como se não houvesse futuro. Éramos só nós dois, sem motivos. Nós estávamos como no começo de nosso amor Apaixonados... Imergindo.

Pacote de Plástico

Já eram onze horas da noite. Ele ainda não estava em casa, esperava. Esperava no frio, no terminal, seu ônibus. Havia naquele dia um número maior de pessoas do que nos outros, algo estranho no ar. Ele olhava as pessoas e não as enxergava. Pensava na frase: "Eu vejo a vida que está em ti, você vê a minha em mim?" O que aquilo queria dizer? Ele estava em outro mundo. De um instante a outro percebeu-se fixamente encarando um pacote de plástico. Já não estava mais no terminal, estava no espaço entre ele e o pacote. Nada mais havia ali. O ônibus não viria. Percebeu também que ao fitar o plástico daquela maneira, ele ignorava. O fazia sentir-se bem. Não havia opressão a sua cor, a sua raça, a sua religião, a sua sexualidade, o seu eu. Era tão somente ele e o plástico. Pacote do que aquilo era? Pertenceu a quem antes de ser jogado no chão? O que ele guardava? Não interessava. O plástico transformou-se em uma metáfora, um refúgio. Tentou desviar o olha...

O mapa do seu coração

Foi uma fase difícil e duradoura Com pratos quebrados e canecas especiais em cacos Foi como andar em um pântano habitado por feras inimagináveis Sempre à noite, sempre chovendo, sempre correndo, sempre chorando.  Milhares de pessoas eu via diariamente e nenhuma delas era você Nenhuma delas traria o terror e a luta do seu coração Nenhuma delas valeria a pena amar quando a manhã chegasse  E de repente éramos nos dois deitados numa cama pequena abraçados pensando. Você respirava pausadamente da maneira que me conquistara. O quarto escuro era iluminado por algo novo e frágil; Amor.  Nós sabíamos que não valeria a pena continuar mornos. Havia necessidade de conflito psíquico, para que o amor não fosse somente um sexo entre pessoas que se consideram amantes... O amor não vinha assim.  A paixão foi criada no dia em que te vi, o amor, anos depois. Havia segredos e escuridão em nossos corações e nosso papel era descobrir todos. Era mapear a dor, ...

O segredo de vida

Era uma sensação estranha Um feixe de luz não apagado Havia algo em um meio vazio Algo que não deveria estar ali Em um corredor branco, somente o enfermo Caminhando para o fim, uma porta, saída Mas até o fim ele não chegaria Pois o fim do corredor estava mais distante que o seu próprio E o sem-teto estava à flor da lua Olhava para o céu e pedia a Deus “O que em mim falta Senhor?  Estarei eu tão longe de sua Graça?” As infinitas ruas esmagadas pelos carros Ouviam os murmúrios do pobre homem sem rumo Caminhavam com ele cobrindo a terra E o homem se deitava cansado, na grama Haveria nos homens um amor escondido? Se houve um dia, pode ser já se perdeu Entretanto, cantando passava um cego Desgraçado de vistas, mas feliz como um rei Motivo de espanto era o homem contente Para o meio, o enfermo, o sem-teto e o asfalto Mas não era ele o personagem principal O cego passara e em algum lugar chegou E no meio dos povos uma borboleta voava Olh...